quinta-feira, 31 de maio de 2012
Crônica 1: Redenção
A esperança já não existe...
O mundo não é mais nosso, na verdade penso se alguma vez fora. O ódio anda personificado em cada inimigo que cruzo. Leis são feitas por nós mesmos, os sobreviventes. Aqueles que resistiram bravamente ao apocalipse. Aqueles que fazem de sua vida, uma constante aventura. Ou frequentemente um filme de terror. De fato não é uma aventura que gostamos, nem tampouco um filme, onde tudo é encenação. Também não é um jogo, onde você tem mais de uma vida, ou usa um código e está tudo feito. A nossa realidade é bem mais nua e crua: viver ou morrer, uma só vez.
Sentado no chão dessa casa, eu vejo o sol entrar pela janela iluminando essa construção inacabada. As paredes apenas rebocadas, o chão sem piso, o monte de areia no canto do que seria a sala. Fico pensando se tivesse terminado essa obra. Talvez tivesse tido mulher e filhos. Talvez com um pouco de esforço, uma casa ainda maior. Neste momento crianças poderiam estar brincando por esses cômodos, ou estarmos em uma grande e feliz reunião familiar. Ainda ouço ela batendo na porta, eu tampo meus ouvidos, mas ela continua!
Duas horas, tempo suficiente para a vida acabar. Talvez até menos, já vi casos assim. O melhor remédio é destruir o que lhe resta antes que ele o destrua. Essa é a minha regra. Mas não é fácil essa frase ficar repetindo-se na sua cabeça enquanto você precisa fazer o que é certo. Mas o medo o impede. Me impede. Eu espero que possa ser perdoado, se for preciso. Espero que ela me entenda. Eu a amava, e por isso sei que o que está lá dentro não é mais ela. Um demônio talvez. Ou alguma obra científica que não dera certo. De fato eu sei que ela não está mais ali. Talvez esteja repousando em um lugar melhor. Se existir tal lugar.
Checo minha arma, uma simples pistola, apenas um cartucho. Minha faca sempre dentro da minha bota. No meu cinto levo um facão que me salvara muitas vezes antes. O óculos me protege daquela luz altamente perigosa que vem do céu. Logo após O Incidente, o mundo foi morrendo cada vez mais rápido, até a maioria de suas defesas falharem ainda mais. A luz que vinha do Sol praticamente não era filtrada. O que nos restara foi nos vestir muito, mesmo apesar do sol, usar sempre óculos escuros e carregar muita água. Mas esse último ingrediente de nossa sobrevivência, andava ainda mais escasso. A maior parte da água foi envenenada de alguma forma. Vi muitos morrerem assim. O preço por ela ficava cada vez mais alto. Muito mesmo. Por isso levava minhas duas garrafas que valeriam milhares de reais, dentro da bolsa, e as protegiam como se fossem minha vida. Talvez por esse motivo, tenha esquecido dela, quem eu amo, como em uma fração de segundos tudo aconteceu. Agora eu me levanto, tiro a faca da bota e me preparo para acabar de uma vez por todas com o sofrimento dela.
O barulho da bota a cada passo naquele chão empoeirado, meus inimigos correndo de um lado pro outro ao redor da construção. Não podia nem mesmo ver aquele céu azul e tentar me acalmar, ou então não veria mais nada enquanto vivesse. A distancia de um cômodo para o outro era como quilômetros para mim. Não queria fazer aquilo, mas temia algo pior. A porta talvez não aguentasse por muito tempo. Seus gritos me ensurdeciam naquele momento. Sua voz não era mais aquela melodia suave, ou o encanto que me fazia continuar lutando por minha vida. Seu semblante, como vi da última vez, era de tristeza. Mesmo sendo aquela coisa, eu podia ver a tristeza através de seus olhos. Talvez fosse a única coisa que sentisse. Penava por ela. E ia acabar com aquilo de uma vez por todas e torcer para estar vivo ao terminar.
A porta balançava, ela sabia que eu ainda estava ali e me queria. Os gritos pareciam de dor, mas talvez fosse como o grito de um animal furioso. Vi o caminho de sangue que levava até lá. Foram segundos muito duros para mim, leva-la até lá. Fingia torcer para que sobrevivesse, mas eu sabia muito bem qual seria seu fim.
A pistola estava empunhada, assim como a faca. Armei-a colocando o braço que segurava a faca por baixo do cano da pistola, assim poderia me defender se não acertasse o tiro. Fui chegando mais perto da porta devagar e calmamente. Mantinha a respiração para não me exceder. Ela parou. O barulho dos gritos cessaram, assim como as tentativas de abrir a porta. Minha respiração estava calma, mas não conseguia diminuir a palpitação excessiva. Apesar dos outros lá fora, eu só conseguia ouvir o barulho do meu coração. Como um tambor sendo batido sem controle. Um ritmo exagerado. Meu rosto estava firme, mantinha a mira da pistola, o medo mascarado em coragem, era hora de ver o que acontecera com ela. Pensei nisso, pelo menos. Então abri a porta com cuidado girando a maçaneta. A palpitação aumentou. Decidi tentar amedronta-la, chutei a porta que se chocou contra a parede, dois ruídos bem audíveis, e talvez tenha conseguido mesmo, pois ela não aparecera. Silêncio dentro do quarto escuro. Estava afastado da porta, queria que ela aparecesse. Um passo à frente, comecei a tremer, ouvi um grunhido, como de sofrimento, era ela. Outro passo à frente, vi um de seus pés, estava quase despida, de camiseta fula e uma calça toda rasgada, considerando a maneira como nos vestíamos naqueles tempos, era pouco, quase nada. Seus pés estavam empoeirados e feridos, talvez de tanto chocar-se contra a porta. Pouco a pouco ela foi aparecendo, um passo após o outro, cambaleando, sua mãos sangravam com ferimentos, a direita parecia quebrada. Seu pescoço estava pálido e vários filetes de sangue desciam por ele, pelo ferimento no rosto que a fizera ficar daquele jeito. Então por último seu rosto, não era mais aquela linda mulher, não era mais o meu amor, ela sim devia estar em outro lugar, pois na minha frente estava apenas o resto de um corpo que teimava em continuar em pé. Ela olhou para mim com seu olhar triste, quase senti pena, mas logo o olhar de tristeza tornou-se de raiva, de ódio, e como uma rajada, ela veio para cima de mim. Eu, como num reflexo, disparei a pistola e finquei a faca em seu pescoço. O sangue jorrara em meu rosto e quase entrara em minha boca, seria meu fim se acontecesse. Estava morta, um tiro na cabeça e uma facada no pescoço. Apesar de ter morrido antes, somente agora estava de fato morta. Não senti pena, nem tampouco remorso. Não era mais a minha garota que estava ali, repetia em minha mente como se fosse um gravador. Nossa história não terminara ali, terminara bem antes, quando dera seu último suspiro, pois ali restava apenas o seu corpo e seu instinto animal.
Andei até a beirada da laje, depois de limpar minha faca. Olhava dali de cima todas aquelas criaturas cambaleando de um lado para o outro. Quando me vissem, não iriam mais cambalear. Eram perigosas demais. Verifiquei novamente o pente da minha arma, só havia usado uma bala até aquele momento. Então prometi não somente a mim mesmo, mas também a ela, ao meu amor, que iria continuar vivendo, iria continuar sobrevivendo naquela selva de pedra, dominada por malditos zumbis, até a esperança se esvair de mim...
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